Fertile Futures

Claude Monet, Water Lilies, 1914–26, MOMA

A 18.ª edição da Bienal de Arquitectura de Veneza, em 2023, comissariada por Lesley Lokko, teve como tema central “o laboratório do futuro”, desafiando os arquitectos a olhar para o continente africano como mote de reflexão da sua prática. A Representação Oficial Portuguesa na 18ª Bienal de Arquitectura de Veneza, sob o tema “Fertile Futures”, com curadoria de Andreia Garcia e co-curadoria de Ana Neiva e Diogo Aguiar, centrou-se no “elemento comum a toda a espécie humana e não humana” (1) — a água.

A gestão hídrica de água doce em todo o território nacional determinou o mapeamento de sete hidrogeografias — Bacia do Tâmega; Douro Internacional; Médio Tejo; Albufeira do Alqueva; Rio Mira; Lagoa das Sete Cidades e Ribeiras Madeirenses — casos de estudo que orientaram todo o programa desenvolvido ao longo de um ano, que se desdobrou em três eixos: Assembleias de Pensamento, Exposição e Seminário Internacional de Verão. Defendendo “a pertinência do papel da arquitetura no desenho de um futuro colaborativo, descarbonizado e descolonizado, a partir de uma abordagem heterogénea, aberta à experimentação, ao diálogo e à reflexão comum, focada na realidade do território português.” (1), sete equipas de jovens arquitetas e arquitetos — Space Transcribers; Dulcineia Santos Studio; Guida Marques; Pedrez; Corpo Atelier; Ilhéu Atelier; Ponto Atelier — em colaboração com especialistas de outras áreas de conhecimento, foram convidadas a desenvolver “modelos propositivos para um amanhã mais sustentável, em cooperação não hierarquizada entre disciplinas, gerações e espécies.” (1)

A identidade gráfica de “Fertile Futures” procurou também desenvolver-se como um laboratório, um espaço de experimentação gráfica e visual que, ao longo de todo o projecto, foi assumindo diversos estádios, transfigurando-se nos diferentes momentos de cada eixo programático. Através do acto da escrita procurou-se uma aproximação à força da oralidade que espelhasse, em simultâneo, as ideias de abundância e escassez, temas centrais na reflexão lançada. Os múltiplos ensaios visuais e espaciais partem da arquitectura das palavras “Fertile” e “Futures” para auscultar diferentes dinâmicas entre as duas e os seus significados, num corpo vivo e sinestésico.

Foi neste contexto que se desenvolveram os dois volumes da publicação, num registo de todo o programa desenvolvido, com o lançamento do volume 1 a ter lugar na inauguração da exposição em Veneza, em maio de 2023, e o do segundo, assim como da colecção dos dois volumes, a acontecer já posteriormente ao encerramento da Bienal, com a inauguração da exposição Fertile Futures – Laboratório em Itinerância em território nacional, na Trienal de Lisboa, em janeiro de 2024, um ano depois da primeira Assembleia de Pensamento.

A concepção gráfica das duas publicações procurou actuar dentro das mesmas premissas acima descritas e desenhar documentos operativos e acessíveis, que reflectissem as múltiplas vertentes do programa, através de diferentes registos gráficos e tipográficos que, cirurgicamente, se fossem aproximando e afastando. Foi ainda fundamental, em todas as opções tomadas, procurar proporcionar uma experiência de leitura simultaneamente diluída e confortável nas duas línguas — português e inglês —, assim como procurar estabelecer relações de continuidade e singularidade entre os dois volumes.

A documentação das Assembleias de Pensamento surge no seguimento de apresentações orais e presenciais, da parte de múltiplos consultores e especialistas convidados. Procurou-se uma integração fluída e balanceada entre texto e imagens, propondo-se uma leitura paralela destes dois elementos, onde as imagens atravessassem horizontalmente as duas línguas e tivessem o seu espaço de actuação bem delimitado, ocupando maioritariamente o terço inferior da página, em oposição à mancha de texto, nos dois terços superiores.

O registo da Exposição desdobra-se entre o primeiro volume, onde se desvenda o processo de trabalho das sete Oficinas de Hidrogeografias, anterior ao momento expositivo, e o segundo volume, que documenta os projectos expositivos das sete equipas em Veneza. As imagens e fotografias — num primeiro momento, de carácter propositivo, e, num segundo, documental — assumem neste segmento uma escala dominante e são reproduzidas a cores, parâmetros fundamentais na definição dos múltiplos ambientes gráficos decorrentes do contexto de actuação e projecto de cada equipa. Procurou-se desenhar uma experiência paralela à navegação no próprio espaço expositivo — um corredor central que permite o acesso a sete salas independentes — e trazer a contaminação desse mesmo espaço para o livro.

O Seminário Internacional de Verão reuniu, no Fundão, as sete equipas de arquitectura e um conjunto de 70 alunos nacionais e internacionais, que, ao longo de duas semanas e em visitas de campo, conferências, workshops, foram convidados a pensar em conjunto “o futuro do território perante as adversidades provocadas pela escassez de água doce”. Procurou-se ensaiar neste capítulo a dimensão exploratória das duas semanas, na intercalação de registos processuais dos projectos desenvolvidos pelos estudantes e arquitectos com a documentação fotográfica das instalações finais.

Hydroreflexivity, o capítulo que encerra o segundo volume, resulta de uma colaboração com a E-flux Architecture e transpõe para o plano físico um conjunto de seis textos publicados nesta plataforma digital. O desenho desta secção procurou aproximar-se das Assembleias, mas com uma acentuação da verticalidade do texto que, mantendo as mesmas especificidades, agora ocupa toda a extensão vertical da página, só interrompida pela entrada de imagens.

Em suma, as duas publicações procuraram transpor graficamente o campo exploratório que caracterizou o projecto Fertile Futures nos seus diversos eixos programáticos. Ao longo dos dois livros, pontuaram-se as diferentes fases através de contrastes tipográficos e composições textuais espaciais, da relação de diversos corpos e escalas, da alternância entre a fonte serifada e não-serifada, da verticalidade ou horizontalidade das manchas de textos e da sua relação híbrida com a imagem. As relações texto-imagem, ora autónomas, ora ancoradas no texto, procuram abrir também a possibilidade de uma leitura não linear, através de signos e diapositivos que relacionam entre si várias tipologias — processuais, documentais, propositivas.

  1. Fertile Futures