1961–1992 japan 日本

Após a segunda guerra mundial, o Japão viveu um período de profunda reconstrução material e social. Numa fase marcada pela força do movimento metabolista e por uma intensa procura, as casas unifamiliares eram vistas como irrelevantes, arquitetónica, cultural e financeiramente: eram uma arquitetura menor.
No início dos anos 60, o jovem arquitecto Kazuo Shinohara, originalmente formado em matemática, decidiu concentrar-se nas encomendas que os grandes nomes da geração anterior desvalorizavam. Em 1962, afirmou que “uma casa é uma obra de arte”, afastando a casa do poder económico, político e tecnológico da sociedade e da Arquitectura e aproximando-a da dimensão criativa, e crítica, da Arte. Face a esta afronta disciplinar, nas décadas seguintes Shinohara tornou-se a referência de uma geração de jovens arquitetos que definiram um novo panorama arquitetónico no Japão. A casa foi o laboratório para a experimentação arquitectónica de toda uma geração.
O livro reúne uma seleção de 250 casas construídas no Japão entre 1961 e 1992. Numa cadência regular e arquivista, cada casa ocupa o mesmo espaço, uma dupla página, e é a soma desse espaço nivelado que dá corpo ao livro. A ausência clara de qualquer outro conteúdo, que possa condicionar ou distrair, suporta a intenção única deste livro enquanto arquivo. A dimensão física e táctil do objecto, tangível tanto no seu volume (consequência da relação entre o formato, 15×22,5 cm / proporção 2:3, e o número total de páginas, 512) como na textura, cor e matéria dos papéis escolhidos, procura um universo intimista e natural, de descobertas e transições subtis. O seu desenho procurou a construção de um espaço de leitura híbrido, não hierárquico, livre e multidireccional nas duas línguas – inglês e japonês. O livro procura preservar as características únicas de cada idioma e, ao mesmo tempo, integrá-los de forma fluida no desenho tipográfico. Procurou chegar-se a um rigor e a um equilíbrio tipográfico, num peso comum e numa única escala, sem anular as especificidades formais e gráficas de cada sistema de escrita.
A cada obra, são distribuídos e fixados os elementos textuais que identificam a casa (autor, nome da casa, ano), sendo este último o elemento que organiza, em crescendo ou decrescendo, as páginas do livro. A grelha definida respeita a grande multiplicidade de formatos e proporções originais e potencia uma disposição narrativa e flexível de uma selecção de desenhos e imagens em cada página, possibilitando o isolamento ou agregação (pares, trípticos) de peças. Conscientes da leitura de cada dupla página como um todo, procurou-se ainda explorar a dicotomia interior/exterior, com uma concentração das fotografias de exterior, axonometrias, alçados e cortes na página esquerda e de imagens de espaços interiores e plantas na página direita, possibilitando o folhear do livro em dois gestos, de sentidos convergentes ou divergentes.

As casas são ladeadas por duas listas que as distribuem segundo dois parâmetros: ano de construção e autor. A sua dimensão textual e tabular, para além de auxiliar dois possíveis modos de navegação, permite uma vista geral, num mesmo plano, de todos os conteúdos textuais que identificam as casas. Num prolongamento da afirmação da casa enquanto obra de arte, na(s) capa(s) são apenas listados os nomes das 250 casas. É na capacidade de síntese e na dimensão narrativa do nome de cada obra, que aqui propomos um retrato escrito deste período da história da arquitectura do Japão.